Entrevista: desmatamento da Amazônia se aproxima de ponto irreversível, diz professor

O Brasil nunca desmatou tanto. A taxa de desmatamento da Amazônia aumentou 278% em julho deste ano, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Sem apresentar novos números, o governo rebateu os dados do Inpe, e o diretor do órgão foi demitido pelo presidente Jair Bolsonaro. Em meio à crise instalada – que envolveu desde denúncias infundadas sobre o envolvimento de ONGs a críticas de líderes internacionais -, as queimadas continuam consumindo a floresta.

Para entender melhor o que está acontecendo na Amazônia, conversamos com o professor Williams Guimarães, professor do curso de Engenharia Ambiental da Faculdade Internacional da Paraíba (FPB).

Muito se vem discutindo, desde que as primeiras notícias sobre os incêndios na Amazônia começaram a surgir, de que há um exagero nas dimensões dos incêndios. Estamos realmente assistindo a algo atípico ou mais grave do que o usual ou esses fogos são comuns na região?

De acordo com estudos realizados pelo IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change (tradução livre – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), apontam que o Brasil desmatou, em média, 20% da Floresta Amazônica, um percentual próximo ao ponto sem retorno. Portanto, pode-se considerar uma situação grave nos dias atuais.

Quais os prejuízos permanentes no bioma florestal que os incêndios podem provocar? Há alguma forma de recuperação dos trechos afetados pelo fogo ou os danos são irreversíveis?

Sobre esta questão, estes mesmos estudos sugerem que a floresta não conseguirá se regenerar se o desmatamento chegar a 40% da mata. Há quem considere uma situação ainda pior, estimam em 25%. Biomas endêmicos, ou seja, que não existem em lugar nenhum no mundo (apenas na Amazônia), irão desaparecer, podendo causar inclusive um colapso global.

Recentemente, a cidade de São Paulo foi encoberta por uma nuvem que a deixou em completa escuridão ao longo do dia. Dentre os fatores que levaram ao fenômeno, foi citada a fumaça proveniente dos incêndios na Amazônia. Isso parece ser um sinal de que a destruição da floresta provoca consequências em uma escala não apenas regional. Que consequências o Brasil e o mundo pode enfrentar, ambientalmente falando, se essa situação não for revertida?

A fumaça proveniente de queimadas na região amazônica, nos estados do Acre e Rondônia, além da Bolívia, chegou a São Paulo pela ação dos ventos, associada à combinação desse excesso de umidade com a fumaça. Segundo informações oriundas de especialistas no assunto, isso acontece por conta da convergência de massas diferentes. A frente fria da capital, junto com as temperaturas amenas que vêm do oceano e do vento quente do interior, provocam essa turbulência e isso baixou o nível da nuvem.

Dados do Inpe revelaram que o nível de desmatamento na Amazônia cresceu 278% em julho deste ano relação ao mesmo período do ano passado. Na sua opinião, o Brasil vem falhando na tarefa de proteger a floresta?

Sobre este assunto os dados científicos são categóricos e confiáveis. Basta ter acesso aos artigos científicos que há décadas abordam o assunto para se ter uma noção da dimensão do desmatamento na Amazônia. Quem afirmar o contrário deve apontar em qual base científica foi amparado para fazer tal afirmação; caso contrário, fica complicado discutir questões ambientais com quem não entende do assunto – se tratando, inclusive, dos líderes atuais que comandam politicas públicas voltadas paras estas questões.

É possível aliar sustentabilidade ambiental à exploração econômica da Amazônia?

O conceito de desenvolvimento sustentável, amparado numa ética indiscutível, comprometida em conservar a natureza para as gerações futuras, tornou-se um consenso em quase todo o planeta. Contudo, a sua viabilidade prática ainda precisa ser avaliada, pois é difícil definir até que ponto a exploração econômica é compatível com a manutenção de um ambiente. Promover a inovação focando em sustentabilidade é considerada de suma importância a cada dia. As necessidades do meio ambiente devem ser levadas em consideração ao ponderarmos sobre novas formas de produção em condições de trazer benefícios tanto ao meio ambiente quanto às organizações.

Fonte 83


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