Morre a atriz Nicette Bruno, vítima de COVID-19

Nicette Bruno morreu vítima da COVID-19 (foto: Globo/João Miguel Júnior)

Morreu, na manhã deste domingo (20/12), a atriz Nicette Bruno, aos 87 anos, vítimas da COVID-19. Ela estava internada desde o fim de novembro na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Casa de Saúde São José, no Humaitá, Zona Sul do Rio.

Nesse sábado (19/12), o quadro clínico  da atriz apresentou piora, de acordo com o boletim médico divulgado pelo hospital. “Seu quadro clínico voltou a piorar e é considerado muito grave”, dizia o comunicado.

Em nota, o hospital confirmou a morte de Nicette Bruno, no início da tarde deste domingo, por “complicações decorrentes da Covid-19″.

A atriz Beth Goulart, filha de Nicette Bruno, fez uma corrente de oração nas redes sociais pela recuperação da mãe  e de todos os pacientes vítimas da COVID-19. ” ‘ORACÃO PARA NICETE’ e para todos os doentes de Covid, fortalecimento para os familiares e para as equipes de saúde que está trabalhando incansavelmente Gratidão a todos”, escreveu.

Relembre a trajetória de Nicette Bruno

Nicette Xavier Miessa nasceu em 7 de janeiro de 1933, em Niterói, no Rio de Janeiro. Filha da médica e atriz Eleonor Bruno Xavier e de Sinésio Campos Xavier, ligado à área de finanças, estreou aos 4 anos, no programa infantil de Alberto Manes, na Rádio Guanabara.
Aos 9, Nicette já fazia parte do grupo de teatro da Associação Cristã de Moços, apresentando as primeiras peças com essa trupe. Também atuou no Teatro Universitário, comandado por Jerusa Camões, e no Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno.
Aos 14 anos veio a chance de ouro. Contratada pela famosa Companhia Dulcina-Odilon, comandada por Dulcina de Moraes (1908-1996), ela ganhou a medalha de ouro de Atriz revelação na premiação organizada pela Associação Brasileira de Críticos Teatrais. A bonita adolescente interpretava Ornela na peça A filha de Iório, de Gabriele D’Annunzio. Também aos 14, estreou no cinema, no filme Querida Suzana (1947), de Alípio Ramos.
Foi nos palcos que a jovem atriz conheceu, aos 19 anos, o amor de sua vida: o colega de profissão Paulo Goulart, um paulista tão dedicado ao ofício quanto ela. Os dois formaram um dos casais mais queridos do público brasileiro.
Paulo e Nicette tiveram três filhos, todos atores: Paulo Goulart Filho, Bárbara Bruno e Beth Goulart. O casal permaneceu junto até 2014, Paulo morreu de câncer nos rins. “Vamos ter esse momento de separação, mas vamos nos encontrar. Tenho a certeza de que ele sempre estará conosco”, comentou ela, ao se despedir do homem com quem compartilhou a vida e o ofício por mais de seis décadas.
Quatro anos antes, os dois haviam lançado o livro Grandes pratos e pequenas histórias de amor, com receitas que adoravam compartilhar aos domingos.
Inseparáveis, dedicaram décadas ao palco. Em 1953, ela e Paulo fundaram o Tinb – Teatro Íntimo de Nicette Bruno, companhia que contou com os talentos de Tônia Carrero, Rubens de Falco e Walmor Chagas.
Nicette trabalhou com diretores de teatro respeitados, como Antunes Filho (Ingênua até certo ponto, em 1953) e Ziembinski (Zefa entre os homens, em 1962). Fez o papel de Aparecida em Pedro Mico, peça de Antonio Callado, que estreou em 1958.
Na década de 1960, Nicette e Paulo se mudaram para Curitiba, onde trabalharam na Escola de Teatro do Guaíra, destacando-se no Teatro de Comédia do Paraná. Nicette encenou Um elefante no caos, de Millôr Fernandes (1963), e foi dirigida por Cláudio Corrêa e Castro em A megera domada, clássico de Shakespeare, em 1964.
De volta a São Paulo, o casal criou o Teatro Livre com Antônio Abujamra, montando textos de Sérgio Jockyman, Gorki e Joe Orton. Outras peças de destaque de Nicette foram O efeito dos raios gama nas margaridas do campo, de Paul Zindel, e Dona Rosita, a solteira, de Federico García Lorca. Em 1988, ela montou em parceria com Abujamra o clássico À margem da vida, de Tennessee Williams.

Grande nome também na televisão

Com ampla experiência no teatro, Nicette se tornou artista popular graças à TV. Foi pioneira das novelas, participando de teleteatros em 1950, na também pioneira TV Tupi. Nessa emissora, fez parte da primeira adaptação do clássico de Monteiro Lobato, Sítio do Picapau Amarelo, para a telinha, que ficou em cartaz de 1952 a 1962.
De 2001 a 2004, Nicette se tornaria a vovó querida das crianças de todo o Brasil, ao fazer o papel de Dona Benta em outra adaptação do Sítio, agora produzida pela TV Globo.
Como atriz de folhetins da TV, ela chamou a atenção como Estela em Os fantoches, da TV Excelsior, exibida de 1967 a 1968. O elenco contava também com Dina Staf, Regina Duarte, Beatriz Segall, Atila Iorio e Paulo Goulart.
A partir daí, tornou-se atriz requisitada da TV brasileira. Na Tupi, fez as novelas Meu pé de laranja-lima (1970), Éramos seis (1977) e Como salvar meu casamento (1979), o último folhetim da emissora, encerrado a 20 capítulos do final, em fevereiro de 1980 – o canal saiu do ar pouco tempo depois.
Logo Nicette Bruno ingressaria na TV Globo, onde atuou em 39 produções. O convite veio em 1981, por parte do ator e diretor Fábio Sabag (1931-2008). Ela estreou na emissora no seriado Obrigado, doutor. Em 1982, fez sua primeira novela global: Sétimo sentido. Não parou mais, destacando-se em Meu destino é pecar (1984), Selva de pedra (1986), Mulheres de areia (1993), O amor está no ar (1997), Alma gêmea (2005), A vida da gente (2011), I love Paraisópolis (2015) e Pega pega (2017), entre várias produções da emissora.
A última novela de Nicette Bruno foi Órfãos da terra, em 2019, como Ester Blum, a mãe extremamente controladora e passional de Abner (Marcelo Médici). Este ano, o folhetim escrito por Thelma Guedes e Duca Rachid conquistou o Prêmio Emmy Internacional, na categoria Melhor telenovela.
De setembro de 2019 a março deste ano, a atriz fez participação especial na releitura de Éramos seis, também na Globo. Na versão de 1977, Nicette interpretou Lola. Agora, viveu madre Joana, a freira de um asilo que encontra Lola, vivida por Glória Pires.
Nicette Bruno recebeu os prêmios da Associação Brasileira de Críticos Teatrais, Shell e da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), entre outros.

DEIXE SEU COMENTÁRIO